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Músicos que tiveram a vida ligada ao frevo celebram 114 anos do ritmo em meio à pandemia

“O frevo é uma questão espiritual. É de alma, é proteção. Em vários momentos difíceis, para mim e para a orquestra, o frevo nunca nos abandonou. Me afastar do frevo é me afastar do meu poder maior cultural, de um lugar, do povo. Quando se fala de alma, representa muito para mim. Em tudo o que eu realizei, o frevo estava do lado”.

O depoimento é de Spok, um dos mais conhecidos maestros de frevo de Pernambuco. Nesta terça-feira (9), dia em que o gênero musical completa 114 anos, o G1 conversou com ele, com o maestro Forró e o cantor Claudionor Germano, conhecido como “A Voz do Frevo”, sobre o sentimento de celebrar a data em meio à pandemia de Covid-19.

“Infelizmente, hoje seria um dia para estarmos nas ruas, celebrando o nosso frevo. Por causa dessa pandemia que nos assolou, teremos que comemorar de uma forma diferente, mas com a certeza de que a força, a magia, o encanto e a energia do frevo estarão presentes em cada amante do nosso ritmo maior”, disse Claudionor Germano, que, aos 88 anos, continua nos palcos.

O dia 9 de fevereiro ficou marcado como aniversário do frevo, porque foi nessa data, em 1907, em que houve o primeiro registro da palavra que nomeia o ritmo, embora o termo fosse usado desde muito antes pela população.

O Jornal Pequeno, quando publicou o repertório do Clube Carnavalesco Empalhadores do Feitosa, usou a corruptela do verbo ferver, pronunciada como “frever”.

O termo foi cunhado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2007, quando o ritmo completou 100 anos.

Para maestro Spok, a ligação com o frevo é espiritual. “Começa desde que me entendo por gente. Meu pai era muito festivo. Minha casa era sempre enfeitada com bandeiras no São João e no carnaval. Meu tio tocava saxofone numa orquestra de frevo e meu pai adorava o irmão. Quando me mudei para o Recife, nos anos 1980, comecei a conviver com os mestres do frevo, como Duda, Ademir Araújo, Guedes Peixoto e tantos outros”, afirmou Spok.

Em bandas de pau e corda, Spok conheceu grandes intérpretes de frevo de Pernambuco, como Alceu Valença e André Rio. Em 2001, ele realizou o sonho de criar a SpokFrevo Orquestra, composta por 18 músicos. A banda já fez inúmeras apresentações internacionais e em todo o Brasil.

“Para milhões de pessoas, o carnaval é uma festa. Para outros milhares, é sobrevivência. Tem muita gente que depende do carnaval para sobreviver o ano inteiro, fora todo o amor, diversão, a manifestação cultural. Carnaval é sobrevivência. Este vai ser um ano absurdamente difícil, duro, mas sou completamente a favor de que não se tenha o carnaval nos moldes normais, porque a vida está acima de tudo”, afirmou o maestro.

Spok, em carnavais não pandêmicos, estaria, em fevereiro, com a agenda cheia para celebrar o aniversário do frevo.

Este ano, devido à pandemia, ele participa de uma live do Paço do Frevo, espaço cultural dedicado à difusão, à pesquisa, e à formação de profissionais nas áreas da dança e da música, dos adereços e das agremiações do frevo. A transmissão começa às 10h e o show, às 17h.

Mistura de diversidades

O frevo chegou à vida do maestro Forró muito cedo. Nessa época, ele atendia pelo nome de Francisco Amâncio da Silva, nascido e criado no bairro da Bomba do Hemetério, localizado na Zona Norte do Recife. A região tem uma das maiores efervescências culturais de Pernambuco, com escolas de samba, bandas, maracatu, tribos e diversas manifestações.

“O frevo é essa mistura de diversidades que se transforma numa grande coletividade. O frevo tem me levado a lugares inimagináveis. Trabalhando seja aqui, em casa, ou nas ruas, num palco em Nova Iorque ou Paris. Para mim, o frevo é algo energético, é astral”, disse Forró.

Maestro Forró foi o personagem que Francisco criou para desburocratizar a figura do maestro. A figura, extrovertida, marcada por roupas coloridas, óculos escuros, bermuda e muitas gaiatices, é uma metáfora para o próprio maestro, que diz ter crescido entre o academicismo da música erudita e o empirismo das manifestações vindas do interior de Pernambuco e da própria Bomba do Hemetério.

“Nasci numa família musica. Meu pai foi Zé Amâncio do Coco, que veio da Zona da Mata Norte, e minha mãe foi Maria da Penha, uma professora que gostava muito de cantar. Aos 5 anos, eu já tocava zabumba acompanhando ele tocar sanfona. Meu pai trouxe coco de roda, ciranda, maracatu rural. Ao mesmo tempo, meu irmão mais velho estudava música erudita. Eu tinha a influência acadêmica dele e a experiência empírica do meu pai e da Bomba do Hemetério”, afirmou.

Aos 14 anos, maestro Forró entrou na banda musical da Escola Dom Vital, em Casa Amarela. “Foi lá onde aprendi as primeiras partes da vida acadêmica de música, como o que era uma partitura. Depois, fui para um centro de música na Rua da Aurora e, depois, entrei na Universidade Federal da Paraíba. Criei a Escola Comunitária de Música da Bomba do Hemetério, que se tornou a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério”, disse.

A criação de Forró veio da necessidade, segundo ele, de desmistificar a figura do maestro. “O objetivo é, além de estudar a linguagem acadêmica, adicionar a comunicação, espontaneidade, alegria. Quebrar o mito do maestro, que tem que ser o dono da verdade. Maestro Forró propõe a relação direta com o publico e a orquestra. É uma mistura de músico, jornalista, cachorro. Uma mistura de tudo do cotidiano”, afirmou.

A pandemia, para o maestro, também serviu para reinventar o ofício. Ele lançou, recentemente, o videoclipe da canção Pra Tirar Coco, com uma série de adaptações devido à pandemia.

“Pegamos um tema que faz parte do meu imaginário infantil. Desde criança, eu escuto essa música. Botamos no improviso, no Marco Zero, e o publico enlouqueceu. No fim do ano, resolvemos gravar para ser uma das músicas do novo CD. Por causa da pandemia, fizemos um efeito de multiplicação, com o maestro como todos os músicos. Em vez de uma pessoa de carne e osso, dancei com uma boneca, Carolina”, afirmou.

Fonte: G1

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