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Parque da Guarita completa 50 anos em 2021: conheça a história e o trabalho de José Lutzenberger no local

Existe uma praia diferente de todas as outras no Rio Grande do Sul. Na cidade de Torres, morros e rochedos formados há milhões de anos por atividades vulcânicas quebram o padrão da costa gaúcha.

— É a praia mais linda do Estado — garante o quiosqueiro Abrahão Constante da Silva, que há 30 dos seus 66 anos trabalha ali.  

Criado para valorizar e preservar esse lugar, o Parque Estadual da Guarita vai fazer 50 anos em 2021. Teve seu início em 28 de dezembro de 1971, com um decreto que a declarou a área de utilidade pública, e leva desde 2003 o nome de José Lutzenberger. O ambientalista, falecido em 2002, foi um dos principais entusiastas e também quem comandou as obras de paisagismo na década de 1970.

— Lembro-me do pai se dedicando com verdadeira paixão ao Parque da Guarita. Ele talhava o parque com a sensibilidade de reconhecer que a obra maior a ser ali reverenciada eram os morros esculpidos pela natureza — conta a filha Lara Lutzenberger.

O projeto do parque foi desenvolvido por um famoso paisagista paulista, Burle Marx, e a execução foi conferida a Lutzenberger, engenheiro agrônomo que recém havia fundado a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan). Mas Elenita Malta Pereira, doutora em História que pesquisou a vida de Lutzenberger na sua tese, conta que o ambientalista fez uma série de alterações. Ele inclusive criticava elementos do projeto original.

— Lutzenberger leu o que Burle fez, mas não colocou em prática. Era prevista a construção de prédios, havia muito concreto no projeto, e Lutzenberger era contra isso — diz ela.

Foram feitos canteiros de flores costeiras, laguinhos, trilhas, além de um viveiro de plantas ornamentais, com grande número de suculentas e orquídeas. O ambientalista também providenciou a plantação de espécies nativas da vegetação litorânea.

Ele trabalhou no local até 1979, e não usou maquinários pesados, como retroescavadeiras: os operários usavam carroças para movimentar a terra, e ovelhas roçavam o gramado, na tentativa de gerar o mínimo de agressão possível ao local.

Para preservar as rochas e sua fauna, também proibiu a subida na torre da Guarita: as pessoas escalavam para assistir aos campeonatos de surfe.

— A questão mais importante para Lutzenberger era a ética: como nós, humanos, nos relacionamos com a natureza. Ele defendia que todos os seres têm a mesma importância — argumenta Elenita.

Abrahão tem honrado o trabalho de Lutzenberger. Vai de bicicleta até seu quiosque, alimenta os cardeais com espigas de milho, todos os dias, e se irrita com os turistas que não recolhem o lixo:

— Daí eu junto, né? Tem que ajuntar. Eu gosto dessa praia.

Preocupação ambiental

Ambientalista e presidente da Fundação Gaia, Lara Lutzenberger acredita que o parque conseguiu manter sua essência ambiental, mas foi negligenciado desde que seu pai encerrou os trabalhos. Ela destaca que seu sonho é a “recuperação do encanto paisagístico” que o caracterizou no final da década de 1970.

— Perderam-se os detalhes finos do olhar e zelo de meu pai, mas o conceito e panorama maior se mantiveram ao longo do tempo. Meu receio é o de desmerecerem sua singularidade e riqueza ambiental, introduzindo elementos artificiais que o desconfigurem ou uma dinâmica de ocupação que comprometa a fruição tranquila desse espaço, bem como que a especulação imobiliária do entorno avance um tanto mais de forma bruta — acrescenta.

Secretário de Turismo de Torres, Fernando Nery garante que a preservação do Parque da Guarita é prioridade:

— A gente quer que seja cada vez mais turístico, mas de forma responsável. Sabemos da preocupação da descaracterização, mas a gente quer o parque o mais original possível e quer manter a preservação ambiental.

Ele adianta que, para marcar os 50 anos do parque, planeja realizar a segunda edição do Guarita Eco Festival neste ano. Conta que na de 2020 foram realizadas atividades educacionais e um show com a banda Maneva, que terminou sem nenhum copo ou qualquer outro tipo de lixo no chão. A data depende da evolução da pandemia do coronavírus.

Fonte: Gaúcha ZH

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